Fundado em 13 de abril de 1873, o Colégio Culto à Ciência nasceu em um momento decisivo para a história brasileira, quando ideias ligadas ao progresso, à laicidade do ensino e à valorização do conhecimento científico ganhavam força. Criado por membros da Sociedade Culto à Ciência, vinculada à Loja Maçônica Independência de Campinas, o projeto tinha como propósito oferecer instrução não confessional à população da cidade, refletindo o espírito positivista da época segundo o qual exaltar a ciência era exaltar a razão como guia da humanidade.
Um projeto educacional à frente de seu tempo
Desde sua origem, a instituição assumiu um compromisso com a chamada instrução popular. Isso significava ampliar o acesso ao ensino, inclusive para estudantes de poucos recursos. Tal escolha, embora socialmente relevante, trouxe constantes desafios financeiros. As mensalidades eram baixas e muitos alunos sequer conseguiam arcar com taxas básicas, o que fragilizava o equilíbrio econômico da escola.
A instabilidade aumentou com as epidemias de febre amarela que atingiram Campinas no final do século XIX. Em 1889 e 1890, as atividades foram interrompidas diversas vezes. O período da Proclamação da República também coincidiu com dificuldades administrativas e financeiras, culminando na dissolução da Sociedade mantenedora em 1892. Seu patrimônio foi então transferido ao poder público municipal, garantindo a continuidade do propósito educacional.
Da iniciativa privada ao ensino público estadual
A consolidação como instituição oficial ocorreu alguns anos depois. Pela Lei nº 284, de 14 de março de 1895, foi criado o Ginásio de Campinas, instalado no mesmo prédio do antigo colégio e inaugurado em 4 de dezembro de 1896. A partir desse momento, a escola integrou definitivamente a estrutura pública estadual.
Mesmo diante das adversidades sanitárias e estruturais, o ginásio manteve um corpo docente altamente qualificado no início do século XX, com professores responsáveis por disciplinas que iam das línguas clássicas e modernas às ciências exatas e naturais. Em 1907, havia 99 alunos matriculados, número expressivo para a época, ainda que as epidemias tivessem limitado o total de formandos nos primeiros anos.
Reformas educacionais e mudanças de nome
Em 1942, com a reorganização do ensino secundário brasileiro em dois ciclos ginasial e colegial (clássico ou científico) , a instituição passou a se chamar Colégio Estadual de Campinas. Poucos anos depois, por ocasião das comemorações de meio século como escola oficial, surgiu o desejo de resgatar a denominação original.
Um episódio curioso marcou 1947: por breve período, a escola recebeu o nome de Colégio Estadual José Bonifácio, antes que novo decreto restabelecesse oficialmente o título Culto à Ciência. Décadas depois, em 1976, outra tentativa de alteração foi rapidamente revertida, reafirmando a identidade histórica da instituição.
Patrimônio histórico e símbolo arquitetônico
O prédio que abriga o colégio permanece no mesmo endereço desde o século XIX: Rua Culto à Ciência, 422, no bairro Botafogo, em Campinas. Sua arquitetura, inspirada no classicismo francês do século XVII, mantém características originais mesmo após reformas ao longo do tempo.
Em 1992, o edifício foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (CONDEPACC), reconhecimento que reforça seu valor histórico, cultural e arquitetônico para a cidade.
Tradição e atualidade
Hoje, o Colégio Culto à Ciência oferece Ensino Médio regular, mantendo viva uma trajetória iniciada há mais de 150 anos. Ao atravessar epidemias, crises políticas, reformas educacionais e mudanças administrativas, a escola preservou sua vocação original: promover o conhecimento como instrumento de transformação social.
Mais do que um estabelecimento de ensino, o Culto à Ciência consolidou-se como símbolo da história educacional campineira um espaço onde tradição e compromisso com o saber caminham lado a lado.






