Você precisa saber, desde já: Moisés Lucarelli foi decisivo para criar o sistema de acesso no futebol paulista e para dar à Associação Atlética Ponte Preta um estádio próprio — o famoso Majestoso. Seu trabalho uniu justiça esportiva e construção de patrimônio, e essas duas frentes definiram o legado que você ainda vê em Campinas.
Em resumo rápido: na década de 1940 ele participou da implantação da Lei do Acesso, que institucionalizou o sobe e desce a partir de 1948, e, entre 1944 e os anos seguintes, financiou, coordenou e doou o terreno que permitiu erguer o Estádio Moisés Lucarelli, inaugurado em etapas a partir de 7 de setembro de 1948.
Moisés Lucarelli e a lei do acesso
No contexto do futebol paulista da década de 1940, Lucarelli, ao lado de Roberto Gomes Pedroza e Gerolamo Ometo, participou da criação da chamada Lei do Acesso, implantada a partir de 1948. A medida estabeleceu promoção e rebaixamento, garantindo que clubes do interior e equipes menores tivessem as mesmas oportunidades dos clubes das capitais.
Quando, em 1960, a própria Ponte Preta correu risco de rebaixamento, Lucarelli defendeu a manutenção das regras mesmo sabendo que seu clube poderia ser prejudicado. Para ele, acabar com o sistema seria a morte do futebol do interior; essa posição ajudou a consolidar um princípio que se tornaria pilar do futebol nacional.
A construção do estádio
Cansado de ver o time peregrinar por campos alugados e perder patrimônio para quitar dívidas, Lucarelli agiu para dar um lar definitivo à Ponte Preta. Em 1944 ele reuniu recursos próprios e a ajuda de amigos — entre eles Olímpio Dias Porto e José Cantusio — para pagar a primeira parcela de um terreno de 30 mil metros quadrados na Chácara Maranhão, no Jardim Proença. A área foi doada ao clube na escritura lavrada em 6 de maio de 1944.
“Esta Ponte é a minha segunda família. Assim, por ela tudo faço com satisfação… E não vai ficar só nisso.”
Uma semana depois da escritura, iniciou-se a campanha para a construção do estádio. Em 1945 começou a terraplanagem; vieram dois anos de luta intensa até o início efetivo das obras. Tijolo por tijolo e em regime de mutirão, a cidade abraçou o projeto. A primeira etapa foi inaugurada em 7 de setembro de 1948 e, após nove anos, o estádio estava concluído — por justiça histórica, recebeu o nome de seu idealizador: Estádio Moisés Lucarelli, o Majestoso.
Uma vida dedicada à Ponte Preta
A relação de Lucarelli com a Ponte começou em 1917, aos 17 anos. Trabalhou como cobrador quando o clube havia apenas 40 sócios, foi secretário em 1922 e, a partir de 1930, tornou-se um dos principais dirigentes, embora nunca tenha ocupado oficialmente a presidência. Empresário no ramo industrial, dono de uma fábrica de fogões, dedicou-se exaustivamente à construção do estádio, comprometendo a própria saúde e sofrendo graves problemas de visão durante o processo.
Mesmo após prestar contas rigorosas sobre os gastos da construção, afastou-se do estádio por conta de questionamentos internos; saiu sem deixar dívidas e sem deixar de amar o clube.
Marcos da trajetória
- 1917 — ingresso no clube aos 17 anos.
- 1922 — atuação como secretário.
- 1930 — destaque como dirigente.
- 6 de maio de 1944 — escritura do terreno e doação ao clube.
- 7 de setembro de 1948 — inauguração da primeira etapa do estádio.
- 1975 — depoimento emocionado no Jubileu de Diamante da Ponte Preta.
- 1977 — acompanha à distância a final histórica do Campeonato Paulista.
- março de 1978 — falecimento aos 78 anos.
Legado e despedida
Em 1975, durante o Jubileu de Diamante, Lucarelli declarou emocionado que não imaginava ver Campinas mostrada pela televisão por meio de um estádio que levava seu nome, e ressaltou que o mais importante era que “a minha Ponte vive, tem um lugar para se abrigar e é respeitada no Brasil.” Nos últimos anos acompanhou a história do clube à distância e faleceu em março de 1978, aos 78 anos. A notícia calou Campinas; no Majestoso, o silêncio da torcida deu lugar ao reconhecimento de que a história da Ponte Preta não pode ser contada sem o nome de Moisés Lucarelli.
Se você visita o estádio ou acompanha a trajetória da Ponte Preta, lembre-se: o Majestoso é mais que concreto e arquibancadas — é a materialização de um projeto de igualdade e pertencimento, liderado por um homem que acreditou que o futebol poderia ser maior, mais justo e mais humano.








